domingo, 22 de fevereiro de 2009

Julio Cortázar

Filho de pai diplomata, Julio Cortázar nasceu por acaso em Bruxelas, no ano de 1914. Com quatro anos de idade foi para a Argentina. Com a separação de seus pais, o escritor foi criado pela mãe, uma tia e uma avó. Com o título de professor normal em Letras, iniciou seus estudos na Faculdade de Filosofia e Letras, que teve que abandonar logo em seguida, por problemas financeiros. Para poder viver, deu aulas e diversos colégios do interior daquele país. Por não concordar com a ditadura vigente na Argentina, mudou-se para Paris, em 1951. Autor de contos considerados como os mais perfeitos no gênero, podemos citar entre suas obras mais reconhecidas “Bestiário” (1951), “Las armas secretas” (1959), ), “Rayuela”, (1963), “Todos los fuegos el fuego” (1966), “Ultimo round” (1969), “Octaedro” (1974), “Pameos y Meopas” (1971), “Queremos tanto a Glenda (1980) e “Salvo el crepúsculo” – póstumo (1984). O escritor morreu em Paris, de leucemia, em 1984.

(Extraído de: http://www.releituras.com/jcortazar_menu.asp)


O texto Carta a uma senhorita em Paris foi publicado originalmente em "Bestiario" Bom Texto Editora, 2005.


Carta a uma senhorita em Paris

Andrée, eu não queria vir morar em seu apartamento da Rua Suipacha. Não tanto pelos coelhinhos, mas porque me desagrada entrar em uma ordem fechada, já construída até nas mais finas malhas do ar, essas que em sua casa preservam a música da lavanda, o adejar de um cisne com pós, o dueto de violino e viola no quarteto de Rará. Para mim é difícil entrar em um ambiente onde alguém que vive confortavelmente dispôs tudo como uma reiteração visível de sua alma, aqui os livros (de um lado em espanhol, do outro francês e inglês), ali os almofadões verdes, neste exato lugar da mesinha o cinzeiro de cristal que parece a metade de uma bolha de sabão, e sempre um perfume, um som, um crescer de plantas, uma fotografia de amigo morto, ritual de bandejas com chá e pinças de açúcar... Ah, querida Andrée, como é difícil opor-se, embora aceitando-a com inteira submissão do próprio ser, à minuciosa ordem que uma mulher instaura em sua agradável residência. Como é condenável pegar uma tacinha de metal e pô-la na outra extremidade da mesa, pô-la ali simplesmente porque alguém trouxe seus dicionários de inglês e é deste lado, ao alcance da mão, que deverão estar. Mexer nessa tacinha vale por um horrível vermelho inesperado em meio a uma modulação de Ozenfant, como se de repente as cordas de todos os contrabaixos rebentassem ao mesmo tempo com a mesma espantosa chicotada no instante mais suave de uma sinfonia de Mozart. Mexer nessa tacinha altera o jogo de relações de toda a casa, de um objeto com outro, de cada momento de sua alma com a alma inteira da casa e sua distante moradora. E eu não posso aproximar os dedos de um livro, ajustar de leve o cone de luz de um lampião, abrir a tampa da caixa de música, sem que um sentimento de ultraje e desafio me passe pelos olhos como um bando de pardais.



Você sabe por que vim a sua casa, a seu tranqüilo salão festejado do sol. Tudo parece tão natural, como sempre que não se sabe a verdade. Você foi a Paris, eu fiquei com o apartamento da Rua Suipacha, elaboramos um simples e satisfatório plano de mútua conveniência, até que setembro a traga de novo a Buenos Aires e me atire a alguma outra casa onde talvez... Mas não lhe escrevo por isso, escrevo esta carta por causa dos coelhinhos, me parece justo informá-la; e porque gosto de escrever cartas, e talvez porque chove.



Mudei-me na quinta-feira passada, às cinco da tarde, entre névoa e tédio. Fechei tantas malas em minha vida, passei tantas horas preparando bagagens que não levava a parte nenhuma, que aquela quinta-feira foi um dia cheio de sombras e correias, porque quando vejo as correias das malas é como se visse sombras, partes de um látego que me açoita indiretamente, de maneira mais sutil e mais horrível. Mas fiz as malas, avisei sua criada que viria me instalar aqui, e subi de elevador. Precisamente entre o primeiro e o segundo andar, senti que ia vomitar um coelhinho. Nunca lhe contara antes, não pense, porém, que por deslealdade, mas naturalmente a gente não vai ficar explicando aos outros que, de quando em quando, vomita um coelhinho. Como isto me sucedia estando só, escondia o fato como se escondem tantos detalhes do que acontece (ou a gente faz acontecer) na intimidade total. Não me censure, Andrée, não me censure. De quando em quando me acontece vomitar um coelhinho. Não é razão para não viver em qualquer casa, não é razão para que a gente deva se envergonhar e estar isolado e andar se calando.



Quando sinto que vou vomitar um coelhinho, ponho dois dedos na boca como uma pinça aberta, e espero sentir na garganta a penugem morna que sobe como uma efervescência de sal de frutas. Tudo é rápido e higiênico, transcorre em um brevíssimo instante. Tiro os dedos da boca, e neles trago preso pelas orelhas um coelhinho branco. O coelhinho parece contente, é um coelhinho normal e perfeito, só que muito pequeno, pequeno como um coelhinho de chocolate, mas branco e completamente um coelhinho. Ponho-o na palma da mão, levanto sua penugem com uma carícia dos dedos, o coelho parece satisfeito de haver nascido e bole e esfrega o focinho na minha pele, movimentando-o com essa trituração silenciosa e cosquenta do focinho de um coelho contra a pele de uma mão. Queria comer, e eu (falo de quanto isto acontecia em minha casa de campo) o levo comigo à varanda e ponho-o no grande vaso onde cresce o trevo que plantei para esse fim. O coelhinho levanta bem suas orelhas, envolve o trevo novo com um veloz molinete do focinho, e eu sei que posso deixá-lo e ir embora, continuar por algum tempo uma vida não diferente da de tantos que compram seus coelhos nas granjas.



Entre o primeiro e o segundo andar, Andrée, como um aviso de como seria minha vida em sua casa, soube que ia vomitar um coelhinho. Em seguida tive medo (ou era surpresa? Não, medo da própria surpresa, talvez), porque antes de deixar minha casa, só dois dias antes, tinha vomitado um coelhinho e estava livre por um mês, cinco semanas, talvez seis com um pouco de sorte. Veja você, eu tinha resolvido completamente o problema dos coelhinhos. Plantava trevo na varanda da minha outra casa, vomitava um coelhinho, punha-o no trevo e, ao fim de um mês, quando suspeitava que de um momento para outro... então dava o coelho já crescido à Sra. de Molina, que imaginava um hobby meu e não dizia nada. Já em outro vaso vinha crescendo um trevo novo e oportuno, eu esperava despreocupado a manhã em que a cosquinha de uma penugem subindo me fechava a garganta, e o novo coelhinho repetia desde aquele momento a vida e os costumes do anterior. Os costumes, Andrée, são formas concretas do ritmo, são a quota de ritmo que nos ajuda a viver. Não era tão horrível vomitar coelhinhos, uma vez que isso havia entrado no ciclo invariável, no método. Você há de querer saber por que todo esse trabalho, por que todo esse trevo e a Sra. de Molina. Teria sido preferível matar imediatamente o coelhinho e... Ah, você teria que vomitar um que fosse, pegá-lo com dois dedos e colocá-lo na mão aberta, ainda aderido a você pelo próprio ato, pela aura inefável de sua proximidade recém-partida. Um mês distancia tanto; um mês é tanto, pêlos compridos, saltos, olhos selvagens, diferença absoluta. Andrée, um mês é um coelho, faz de verdade um coelho; mas o minuto inicial, quando o floco morno e buliçoso encobre uma presença inconfundível... Como um poema nos primeiros minutos, o fruto de uma noite de Iduméia: tão da gente que a gente mesmo... e depois tão não a gente, tão isolado e distante em seu raso mundo branco tamanho mapa.



Decidi, contudo, matar o coelhinho mas nascesse. Eu viveria quatro meses em sua casa: quatro - talvez, com sorte, três - colheradas de álcool no focinho. (Você sabe que a misericórdia permite matar instantaneamente um coelhinho dando-lhe de beber uma colherada de álcool? Sua carne então sabe melhor, dizem, embora eu... Três ou quatro colheradas de álcool, em seguida o banheiro ou um pacote se somando ao lixo.)



Ao passar pelo terceiro andar o coelhinho se mexia em minha mão aberta. Sara esperava em cima, para me ajudar a entrar com as malas... Como lhe explicar que um capricho, uma casa que vende animais? Embrulhei o coelhinho no meu lenço, coloquei-o no bolsinho do sobretudo, deixando-o desabotoado para não espremê-lo. Mal se mexia. Sua miúda consciência devia estar revelando fatos importantes: que a vida é um movimento para cima com um clique final, e que é também um céu baixo, envolvente e cheirando a lavanda, no fundo de um poço morno.



Sara não viu nada, fascinava-a o muito duro problema de ajustar o seu sentido de ordem a minha mala-roupeiro, meus papéis e minha displicência diante de suas elaboradas explicações, em que abunda a expressão "por exemplo". Tão logo pude, me fechei no banheiro; matá-lo agora. Uma fina zona de calor rodeava o lenço, o coelhinho era branquíssimo e acho que mais lindo que os outros. Não me olhava, apenas bulia e estava contente, o que era o mais horrível modo de olhar. Encerrei-o no pequeno armário vazio e voltei-me para desfazer as malas, desorientado mas não infeliz, mas culpado, não ensaboando as mãos para tirar delas uma última convulsão.



Compreendi que não podia matá-lo. Mas nessa mesma noite vomitei um coelhinho negro. E dois dias depois um branco. E na quarta noite um coelhinho cinza.



Você deve amar o belo armário do seu quarto, com aquela grande porta que se abre generosa, as prateleiras vazias à espera da minha roupa. Guardo-os ali agora. Ali dentro. Verdade que parece impossível; nem Sara acreditaria. Porque Sara não desconfia de nada, e o fato de que não desconfie de nada se deve a minha horrível tarefa, uma tarefa que consome meus dias e minhas noites num só golpe de rastelo e vai me queimando por dentro e endurecendo como aquela estrela-do-mar que você pôs na banheira e que a cada banho parece encher o corpo da gente de sal e açoites do sol e grandes rumores da profundidade.



De dia dormem. São dez. De dia dormem. Com a porta fechada, o armário é uma noite diurna só para eles, e lá eles dormem sua noite com sossegada obediência. Levo comigo as chaves do quarto ao sair para o trabalho. Sara deve pensar que ponho em dúvida a honradez dela e me olha desconfiada, noto todas as manhãs que está por me dizer alguma coisa, mas por fim se cala, e eu fico muito contente... (Quando arruma o quarto, das nove às dez, faço ruído na sala, ponho um disco de Beny Carter que toma todo o ambiente, e como Sara é também amiga de saetas e pasodobles, o armário parece silencioso e talvez esteja mesmo, porque para os coelhinhos agora é noite e hora de descanso.)



O dia deles principia nessa hora que vem depois do jantar, quando Sara leva a bandeja com um miúdo tilintar de pinças de açúcar, me deseja boa-noite - sim, deseja, Andrée, o mais triste é que me deseja boa-noite ¿ e se fecha em seu quarto e imediatamente estou só, só com o maldito armário, só com meu dever e minha tristeza.



Deixo-os sair, se lançaram ágeis ao assalto do salão, cheirando lépidos o trevo que meus bolsos ocultavam e agora faz no tapete efêmeras rendas que eles alteram, removem e acabam num instante. Comem bem, calados, corretos, até esse instante nada tenho a dizer, só os olho do sofá, com um livro inútil na mão - eu que queria ler todos os seus Giraudoux, Andrée, e a história argentina de López que você tem na prateleira mais baixa -; e comem o trevo.



São dez. Quase todos brancos. Levantam a morna cabeça para as lâmpadas do salão, os três sóis imóveis do seu dia, eles que amam a luz porque sua noite não tem lua nem estrelas nem lampiões. Olham seu triplo sol e estão contentes. Por isso, pulam no tapete, pelas cadeiras, dez suaves manchas se movimentam como uma constelação móvel, de um lado para outro, embora eu quisesse vê-los quietos, vê-los a meus pés e quietos - um pouco o sonho de todo deus, Andrée, o sonho jamais realizado dos deuses - não assim, se insinuando atrás do retrato de Miguel de Unamuno, à volta do grande jarro verde-claro, pela negra cavidade da escrivaninha, sempre menos de dez, sempre seis ou oito, e eu me perguntando onde andarão os dois que faltam, e se Sara se levantasse por qualquer coisa, e a Presidência de Rivadavia que eu queria ler na história de López.



Não sei como resisto, Andrée. Você recorda que vim descansar em sua casa. Não tenho culpa se de quando em quando vomito um coelhinho, se esta mudança me alterou também por dentro - não é nominalismo, não é magia, é apenas que as coisas não podem mudar assim de repente, às vezes as coisas mudam brutalmente e quando a gente esperava a bofetada à direita. Assim, Andrée, ou de outra maneira, mas sempre assim.



Escrevo-lhe de noite. São três da tarde, mas escrevo na noite deles. De dia dormem. Que alívio este escritório coberto de gritos, ordens, máquinas Royal, vice-presidentes e mimeógrafos! Que alívio, que paz, que horror, Andrée! Agora me chamam ao telefone, são os amigos que se inquietam com minhas noites recolhidas, é Luís que me convida a caminhar ou Jorge que reservou entradas para um concerto. Quase não me atrevo a lhes dizer que não, invento prolongadas e ineficazes histórias de má saúde, de traduções atrasadas, de evasão. E quando retorno e subo de elevador - aquela passagem, entre o primeiro e o segundo andar - renovo noite a noite irremediavelmente a vã esperança de que não seja verdade.



Faço o que posso para que não destrocem suas coisas. Roeram pouco os livros da prateleira mais baixa, você os encontrará dissimulados para que Sara não note. Você gostava muito do lampião com o ventre de porcelana cheio de borboletas e antigos cavalheiros? O trincado mal se percebe, trabalhei toda noite com uma cola especial que me venderam em uma casa inglesa - você sabe que as casas inglesas têm as melhores colas - e agora fico ao lado dele para que nenhum dos coelhos o alcance outra vez com as patas (é quase belo ver como gostam de se pôr em pé, lembrança do humano distante, talvez a imitação de seu deus deambulando e os olhando carrancudo; além disso você terá percebido - em sua infância, talvez - que se pode deixar um coelhinho em penitência contra a parede, de pé, as patinhas apoiadas e muito quieto horas a fio).



Às cinco da manhã (dormi um pouco, estendido no sofá verde, e acordando a cada corrida aveludada, a cada tilintar) eu os ponho no armário e faço a limpeza. Por isso Sara encontra tudo em ordem, embora às vezes eu tenha notado nela algum espanto contido, um estar olhando um objeto, uma leve descoloração do tapete, e de novo o desejo de me perguntar alguma coisa, mas eu, assoviando as variações sinfônicas de Franck, faço que nem é comigo. Para que lhe contar, Andrée, as minúcias desventuradas desse amanhecer surdo e vegetal, em que caminho entredormido levantando cabos de trevo, folhas soltas, pêlos brancos, aos encontrões nos móveis, louco de sono, e meu Gide que se atrasa, Troyat que não traduzi, e minhas respostas a uma senhora distante que já estará se perguntado se...? Para que continuar com tudo isto, para que continuar esta carta que escrevo entre telefones e entrevistas.



Andrée, querida Andrée, meu consolo é que são dez e não virão mais. Faz quinze dias que segurei na palma da mão um último coelhinho, depois nada, são só aqueles dez que estão comigo, sua diurna noite e agora crescendo, agora feios e nascendo o pêlo comprido, agora adolescentes e cheios de necessidades e caprichos, saltando sobre o busto de Antínoo (é Antínoo, de fato, aquele rapaz que olha cegamente?) ou se perdendo no living onde seus movimentos criam ruídos ressonantes, tanto que dali devo tirá-los, com medo de que Sara os ouça e apareça horripilada, talvez de camisola - porque Sara deve ser assim, com camisola - e então... Somente dez, pense você que nessa pequena alegria que sinto, em meio a tudo isso, a crescente calma com que ultrapasso de volta os rígidos tetos do primeiro e do segundo andar.



***

Interrompi esta carta porque devia participar de um trabalho de comissões. E a continuo aqui em sua casa, Andrée, sob uma silenciosa grisalha de amanhecer. É o mesmo dia seguinte, Andrée? Um pedaço em branco da página será para você o intervalo, apenas a ponte que une a minha letra de ontem à minha letra de hoje. Dizer-lhe que nesse intervalo tudo terminou, onde você vê a ponte livre eu vejo quebrar-se a cintura furiosa da água, para mim este lado do papel, este lado da minha carta não continua a calma com que eu vinha escrevendo, quando eu a deixei para participar de um trabalho de comissões. Em sua cúbica noite sem tristeza dormem onze coelhinhos; talvez agora mesmo, mas não, não agora ¿ No elevador, logo, ou ao entrar; não importa mais onde, se o quando é agora, se pode ser em qualquer agora dos que me restam.



Agora chega, escrevi isto porque me interessa provar-lhe que não fui tão culpado na destruição inevitável de sua casa. Deixarei esta carta à sua espera, seria sórdido que o Correio a entregasse a você em alguma clara manhã de Paris. Na noite passada virei os livros da segunda estante; eles já os alcançavam, ficando de pé ou saltando, roeram as lombadas para afiar os dentes ¿ não por fome, têm todo o trevo que compro e armazeno para eles nas gavetas da escrivaninha. Rasgaram as cortinas, os forros das poltronas, a moldura do auto-retrato de Augusto Torres, encheram de pêlos o tapete e também gritaram, estiveram dando voltas sob a luz do lustre, em círculo e como que me adorando, e então gritavam, gritavam como eu não acredito que os coelhos gritem.



Quis em vão tirar os pêlos que enfeiam o tapete, aparar as beiras da fazenda roída, encerrá-los de novo no armário. O dia sobe, talvez Sara se levante logo. É quase estranho que Sara não me importe. É quase estranho que não me importe de vê-los saltar em busca de brinquedos. Não tive tanta culpa, você verá quando chegar que muitos dos destroços estão bem reparados com a cola que comprei em uma casa inglesa, eu fiz o que pude para lhe evitar um desgosto... Quanto a mim, do dez ao onze há como um vazio insuperável. Você vê: dez estava bem, com um armário, trevo e esperança, quantas coisas se podem construir. Mas não com onze, porque dizer onze é certamente dizer doze, Andrée, doze que será treze. Então há o amanhecer e uma fria solidão na qual cabem a alegria, as recordações, você e talvez tanta coisa mais. Há esta sacada sobre Suipacha cheia de aurora, os primeiros sons da cidade. Não acredito que lhes seja difícil juntar onze coelhinhos salpicados sobre os paralelepípedos, talvez nem os notem, atarefados com o outro corpo que convém levar logo, antes que passem os primeiros colegiais.


[Encontro Janeiro 2009 coordenação: Dan]

Clarice Lispector

Clarice nasceu em 1922 numa pequena cidade da Ucrânia e chegou ao Brasil aos dois meses de idade, posteriormente tomando a naturalidade brasileira. Criou-se em Maceió e no Recife, transferindo-se aos doze anos para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito, trabalhou como jornalista e iniciou sua carreira literária. Viveu muitos anos no exterior, em função do casamento com um diplomata brasileiro, teve dois filhos - Pedro e Paulo - e faleceu em dezembro de 1977, no Rio de Janeiro.
O conto A repartição dos pães foi extraido do livro Felicidade clandestina (Ed. Rocco, 1998).

A repartição dos pães

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.   

Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos. Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a benção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...   

Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.   

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.   

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.   

Não havia holocausto: tudo aquilo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e  planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.  

 

[Encontro Dezembro 2008 coordenação: Elaine]

 

 

Lillian Hellman

"Pentimento" é o processo de pintar, camada após camada, sobre pinturas antigas, e esse foi o processo da autora de The Little Foxes, na criação de Julia: imaginou que estava dentro de um trem gelado, a caminho da Alemanha hitlerista, para levar a absurda "caixa de chapéu", forrada com 50 mil dólares, para a amiga de escola pela qual ainda se sentia atraída.

Fábula por fábula, é por isso que estamos aqui, agora, a falar de um filme admirável e de uma mentira que, bem ou mal, reforçou o material de um ótimo livro (além de que, sem Pentimento, Muriel Gardiner Buttinger talvez fosse ser lembrada apenas como uma "socialite" com algum vago passado de estudos em Viena, até retornar - correndo - para a América, em 1939).

Lillian Hellmann foi também a autora de peças teatrais de muito sucesso: The children's hour, com sua ousada sugestão de lesbianismo (nos anos 30), é ainda atração, vez ou outra, nos palcos americanos, além de ter tido duas versões cinematográficas, ambas assinadas por William Wyler, mestre do cinema que foi amigo da escritora nascida em 1906, filha de Julia Newhouse e Max Hellman. Para o teatro, ela escreveu também as aclamadas Watch on the rhine, The autumm garden e Toys in the attic.

Seu único fracasso no palco -- My mother, My father and Me - levou-a a abandonar o teatro, em 1963, para se dedicar aos relatos e aos roteiros de filmes como Caçada humana, de Arthur Penn. Em muito do seu trabalho, sente-se o dedo do escritor Dashiell Hammett - com quem Lillian viveu por mais de trinta anos -, tanto nos diálogos quanto em algumas situações dramatúrgicas bem desenvolvidas, com a intriga desdobrada como num bom romance policial. E fica nisso. Hammett de modo algum "escrevia as coisas de Lillian", como os fanáticos de "Dash" gostam de acreditar.

Quando o velho Hammett teve de comparecer perante o comitê da "Caça às Bruxas" (título de um dos polêmicos livros de Hellman), a escritora mais jovem virou uma leoa ferida e, ao chegar a sua vez, teve a atitude inédita entre todos os convocados: recusou-se a falar "a não ser de si mesma". Disse isso por escrito, ao mais que temível Comitê, avisando que não mencionaria nome algum, de amigo ou de inimigo - o que abriu caminho para a "ousadia" de outros. A mesma coragem que Lillian Florence já revelara ao se engajar, anos antes, na luta pela Causa Republicana, durante o desastre da Guerra Civil espanhola (cujo front ela visitou, naquelas levas de intelectuais atraídos, em 1936, para Madrid, Barcelona e outras cidades da península, a fim de "fazerem alguma coisa", fosse no volante de uma velha ambulância ou nas montanhas idealizadas pelos romances hollywoodianos de Hemingway).

Un unfinished woman é o seu relato autobiográfico mais conhecido, talvez por tratar da relação com Dashiell e da amizade com Dorothy Parker e outras celebridades que a autora madura retrata com paleta de aquarelista, trabalhando sobre alguns estudos de artista delicada. Uma mulher inacabada foi o livro distinguido, em 1970, com o National Book Award, e dele saímos com a sensação de haver percorrido a Sibéria remota (Lillian viajou por lá - realmente - a convite de Stalin) ou que trabalhamos com Wyler, num agradável terraço de hotel com vista para as ruínas do Fórum iluminado pelos tons dourados do entardecer romano.

No final da vida, Miss Hellman se interessava pela memória, menos para confiar do que para duvidar do que guardamos nessa caixa de surpresas. "O que retemos? O que perdemos, enquanto preservamos só uma parte das coisas? Aquilo de fato aconteceu naquela Villa toscana, debaixo do guarda-sol agora enferrujado num canto de jardim? Quem era o hóspede que acabou de sair? E que cidade é esta?"...

Essas são algumas das perguntas de fundo - esperadas e inesperadas - de Maybe, o pequeno livro de sessenta e poucas páginas que foi o último publicado por Lillian Hellman, em 1980. Nele, a busca do tempo perdido talvez se transforme na procura do tempo duvidoso que subsiste, de variadas formas, às vezes na mesma memória desconcertada.

Quatro anos depois, viria a falecer, ainda polêmica e ativa aos 79 anos, na casa de praia onde morava - com absoluta necessidade "de ver e ouvir o mar" - no elegante balneário de Martha's Vineyard, Massachusetts.

( Lillian Hellman - retrato de uma americana; extraido de: http://rascunho.rpc.com.br/)

O conto A tartaruga foi extraído de PENTIMENTO – um livro de retratos (1981, esgotado). À medida que o tempo passa, a tinta velha em uma tela muitas vezes se torna transparente. Quando isso acontece, é possível ver, em alguns quadros, as linhas originais: através de um vestido de mulher surge uma árvore, uma criança dá lugar a um cachorro e um grande barco não está mais em mar aberto. Isso se chama pentimento, porque o pintor se arrependeu, mudou de idéia. Talvez fosse possível dizer que a antiga concepção, substituída por uma imagem posterior, é uma forma de ver, e ver de novo, mais tarde. Essa é minha única intenção a respeito das pessoas neste livro. A tinta ficou velha e quis ver como me pareciam antigamente e como me parecem agora (Lillian Hellman, na abertura do livro).




A tartaruga

 Tinha acordado às cinco da manhã, e resolvera pescar durante algumas horas. Remei no bote até o barco, naquela linda manhã enevoada, e dirigi-me às águas turbulentas de West Chop. Antes de alcançar o lago Tashmoo, achei a corredeira mais calma onde os linguados abundavam, pus duas linhas na água e fiz café. Sempre me sinto feliz como uma criança quando estou sozinha num barco, sem ver ninguém, até que o dia clareie. Tendo pescado nove linguados e mais uns dois peixes que Helen gostaria para um cozido, resolvi nadar antes de voltar para casa e para o trabalho. O barco flutuara até a marola mais forte, mas isso não era novidade, e eu nunca me descuidava: amarrava uma pedra de um quilo a uma corda comprida, descia a escada do barco com ela e a carregava para o lugar onde ia nadar. Não sei quanto tempo levei para perceber que não estava nadando, mas sendo arrastada com uma velocidade incrível por uma correnteza que nunca observara antes. Naturalmente o barco tinha se movido comigo, mas um vento forte do lago o estava afastando da corredeira rasa para águas profundas. Não havia o que decidir: não conseguiria nadar até o barco, pois não poderia vencer a força da corrente. Pouco me lembro do período que se seguiu, exceto de que me voltei para boiar, consciente de que nem sempre o pânico se parece com as descrições que fazem dele. Durante algum tempo fiquei rígida, a água lambendo-me o rosto; depois relaxei e tentei perceber para onde a água me levaria. Mas quando me virei para erguer a cabeça, afundei, e ao voltar à tona outra vez já não me importava que não pudesse avistar a margem, pensando que a água era o meu elemento, e que não seria uma forma ruim de morrer, desde que tivesse o bom senso de me entregar tranquilamente, sem uma luta que só me faria sofrer. E então, não sei quando, bati com a cabeça no cais de West Chop, abracei-me a um dos mourões e lembrei-me de nós três, e de uma conversa que tínhamos tido quatro dias depois da morte da tartaruga, e na qual eu dissera a Hammett:

            - Vocês dois se compreendiam. Ela era uma sobrevivente como você. Mas, e eu?

            Não respondera, e por isso à noite tinha repetido a pergunta.

            - Não sei – disse ele – talvez você seja, talvez não. De que adianta a minha opinião?

            Agarrada à estaca, estava eu conversando com um homem que morrera havia cinco anos, sobre uma tartaruga que morrera fazia vinte e seis.

            Mesmo nos dias de 1940, era um dos últimos grandes terrenos daquela região de Westchester County. Eu o tinha visto numa terça-feira e comprara-o na quinta, com os direitos autorais de The Little Foxes, sabendo, e não me importando, que não sobraria dinheiro suficiente para pagar a comida da semana. Chamavam-na uma ‘propriedade’, mas a casa era tão contraditoriamente modesta, em comparação com os grandes jardins formais no estilo do século XIX, que imediatamente se ficava interessada na família que a possuíra por cento e vinte anos e que, segundo o corretor, havia desaparecido. (Isso não era verdade: oito ou nove anos mais tarde, um rapaz de dezesseis ou dezessete anos viera perguntar se podia ver a casa e fazer um piquenique no lago. Tinha dito que nascera ali, e levara um grande galho de espinheiro alvar que a mãe tinha plantado para comemorar seu nascimento.)

            Nas primeiras semanas, fechei as duas casas de hóspedes e resolvi esquecer as cercas vivas, plantas raras e alamedas, e quando Hammett vendeu dois contos, pintamos a casa, arrumamos um lugar onde eu pudesse trabalhar e consertamos o estábulo.

Queria utilizar a terra, e não dei ouvidos quando me preveniram contra o solo duro e rochoso. Contratei Fred Herrmann, um jovem fazendeiro alemão, porque tive a intuição imediata de que seu temperamento era semelhante ao meu, e juntos, anos a fio, chegamos ao extremo da exaustão em um trabalho que começava às seis da manhã e só terminava à noite. Muitos dos nossos planos fracassaram, mas alguns tiveram êxito: criamos e vendemos poodles que estavam muito em moda na época, até termos bastante lucro para comprarmos galinhas; com o dinheiro ganho no roteiro de The Little Foxes para o cinema compramos gado e três mil mudas de aspargos que clareávamos e vendíamos a bons preços. Hibridamos patos dos quais ninguém gostava, exceto eu, enchemos o lago de percas, criamos ótimos porcos, ganhamos muito dinheiro com eles e o perdemos com os faisões; recuperamos algum com os primeiros tomates graúdos, a venda de ovelhas, e de leite gordo e sem pasteurização. Mas tudo isso foi nos bons tempos, antes que tivesse de me desfazer do sítio porque, durante o macarthismo, Hammett foi preso, e eu banida de Hollywood, depois de ter sido chamada a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas. O tempo em que só fazia o que gostava acabou-se em 1952.

            Minhas lembranças sobre aqueles dias são com uma selva: coisas que aprendi e esqueci, ou que recordava pela metade, o que é pior do que esquecer de todo. Parece-me que houve época em que entedia muito de árvores, pássaros, flores silvestres, hortaliças e alguns animais; sabia fazer manteiga, queijo e lingüiça; como tirar o gosto de lama das percas de grandes bocas, e como fazer as pessoas passarem mal com as ervas que colhia e fervia, de acordo com todos aqueles livros que dizem que isso é possível. Os elegantes Gerald e Sarah Murphy ficaram muito enjoados com o repolho-gambá cujo cheiro tinha disfarçado com uma receita do século XVIII.

            Porém, o dia do qual mais me lembro, foi na primavera que passei na propriedade, logo após tê-la comprado. As alamedas estavam limpas da neve e, tendo terminado o trabalho das manhãs nos estábulos, levei Salud, o poodle grande, e quatro dos seus filhotes, para uma caminhada matinal até o lago. Ao atingirmos a pequena colina densamente arborizada em frente à água, Salud parou, virou-se bruscamente e correu para a mata, e depois voltou de marcha-à-ré para a estrada, bem devagar. Os filhotes e eu passamos por ele em direção ao lago, e assoviei, crente que tinha sido atraído por alguma marmota. Mas quando olhei para trás, estava imóvel naquele caminho, como se tivesse inspirado fundo e ainda prendesse a expiração. Chamei-o, porém não se mexeu. Chamei novamente, num tom de comando a que jamais deixara de atender. Fez um movimento de obediência com a cabeça e as pernas dianteiras, fitou-me e voltou-se. Nunca tinha visto um cachorro paralisado, e ao caminhar até onde ele estava, lembrei-me das velhas histórias sobre serpentes e a fascinação que elas exercem sobre todos. Parei, a fim de apanhar um pau grosso e uma pedra, com medo de encontrar alguma cobra. Salud latiu de novo de modo estranho e eu atirei a pedra por cima da cabeça dele, gritando para que me acompanhasse. Quando a pedra atingiu o solo, houve um movimento pesado, bem em frente ao cão. Certa de que era uma cobra pronta a dar o bote, corri para Salud, agarrei-o pela coleira e tropecei com o peso dele. Livrando-se de mim, o cão avançou lentamente na direção do som. Ao levantar-me, vi uma carapaça redonda, de cerca de um metro, passar por ele e avançar sem pressa para a água. Era uma tartaruga enorme.

            Salud seguiu cautelosamente a tartaruga, e enquanto eu permanecia parada, atônita com as figuras do cão e da carapaça que se movimentava vagarosamente, o cachorro saltou diante da tartaruga, estendeu uma pata, e então os maxilares do quelônio fecharam-se sobre a sua perna. Primeiro Salud não emitiu nenhum som, mas depois se levantou sobre as pernas traseiras e soltou um urro de dor que não se assemelhava a nada que eu já tivesse ouvido. Não sei quanto tempo levei para agir, mas bati com o pau na cauda da tartaruga, com toda a força, e ela desapareceu na água. A perna de Salud estava horrível, mas ele era grande demais para que eu pudesse carregá-lo; corri para casa à procura de Fred, e nós dois o levamos para o veterinário. Uma semana depois, já estava bem o suficiente para mancar pelo resto da vida.

            Hammett estava passando algumas semanas na Califórnia, e por isso eu ia sozinha ao lago quase todos os dias, na tentativa de ver a tartaruga de novo, lembrando-me de que, quando era garota em New Orleans, todos os sábados acompanhava minha tia ao mercado francês a fim de comprar suprimentos para a pensão dela. Eu conhecera no mercado dois açougueiros cujos polegares haviam sido decepados pelas tartarugas que limpavam.

            Hammett voltou para a fazenda e ficou penalizado e aborrecido ao ver que seu cachorro favorito estava aleijado. Disse que sempre soubera que havia aquele tipo de tartaruga no lago, e cobras também, mas que agora achava que devíamos tomar alguma providência; assim, iniciou a busca com sua meticulosidade habitual. Passamos semanas comprando livros e publicações oficiais que ensinavam a fazer armadilhas para tartarugas, e assim começaram a chegar os embrulhos mais esquisitos: grandes gaiolas de arame farpado, para fins diferentes, e contempladas durante dias, até que Hammett se decidisse por algumas modificações; cordas extraordinariamente fortes e delgadas; e um livro que mostrava como fazer nós. Ambos lemos sobre a origem das tartarugas cortadoras, mas não me parecia que aqueles relatos ensinassem muita coisa sobre elas: aventavam a hipótese de que pertenciam a mais antiga das espécies vivas que não tinham sofrido alterações, e diziam que seus maxilares eram muito fortes e representavam grande risco para um inimigo; que elas não podiam fazer nada se viradas de barriga para cima; e explicavam por que a minha tartaruga tinha saído da mata: na primavera, a fêmea punha ovos em terra, chocava-os todos os dias, e entregava ao acaso a possibilidade de que os filhotes recém-nascidos achassem o caminho para a água.

            Um dia, talvez um mês depois, já que não havia como apressar Hammett quando resolvia aprender alguma coisa, fomos até o lago carregando as gaiolas de arame, anzóis gigantescos, cabeças de peixe, e pedaços de carne malcheirosa que fora exposta ao sol uns dias antes. Como sempre acontecia, fiquei entediada com a lenta precisão que caracterizava tudo quanto Dash fazia, e comecei a andar pela margem do lago, enquanto ele prendia as iscas no interior das armadilhas, iscava os anzóis e remava com elas à procura de galhos fortes e pendentes onde pudesse amarrá-las.

            Tinha terminado o trabalho em um dos lados do lago, e remara para a margem sul, onde não podia vê-lo, quando resolvi nadar um pouco. Avançava devagar em direção à balsa, quando descobri que um dos galhos de caneleira estava balançando desordenadamente acima da água, a certa distância de mim. Sentada na balsa, fiquei observando, até que concluí que o movimento era causado pela linha presa a um dos anzóis que Hammett amarrara à árvore. Gritei para ele que apanhara uma tartaruga, e ele respondeu que aquilo não podia acontecer tão rápido, mas gritei novamente que viesse me pegar depressa e sem discutir, porque estava com medo.

            Quando surgiu da curva do lago, sorria.

            - Já está bêbada a essa hora?

            Apontei para o galho que balançava. Esqueceu-se de mim e remou velozmente para lá. Vi-o puxar a linha sem conseguir levantá-la, ficar de pé no barco, puxar outra vez, e depois deixá-la cair bem devagar. Remou de volta à balsa.

            - É uma tartaruga mesmo. Venha. Preciso de ajuda.

            Segurei os remos, enquanto ele se punha de pé para soltar a linha da árvore. Estava tão pesada, que quando foi prendê-la à popa do barco, quase caiu para trás. Restituí-lhe o equilíbrio, plantando-lhe um remo bem no meio das costas.

            Encarou-me, massageando-as.

            - Lembre-me – disse, e amarrou a linha à popa.

            - Lembrar você de quê?

            - De que nunca vou querer que me salve. Há muito tempo estava pretendendo lhe dizer isso.

            Quando chegamos à praia ele soltou a corda, e começou a puxá-la para a terra. Uma tartaruga, maior do que aquela que vira com Salud, foi arrastada para fora da água e saltei para trás quando ela esticou a cabeça bruscamente. Dash inclinou-se, agarrou-lhe a cauda e virou-a de barriga para cima.

            - O anzol penetrou bem. Vai agüentar. Volte e traga o carro para mim.

            - Não gosto de deixar você sozinho, não devia estar mexendo nessa coisa... – relutei.

            - Ande – insistiu ele. – Uma tartaruga não é uma mulher. Ficarei a salvo.

            Levamos a tartaruga para casa amarrada ao pára-choque traseiro, rebocando-a pela estrada de terra no quilômetro e meio que separava a casa do lago. Dash foi buscar um machado no depósito de ferramentas e voltou com ele mais uma ripa comprida e resistente. Desvirou a tartaruga, deu-me a ripa, e recomendou:

            - Fique bem afastada, estique a vara, e espere até que ela a abocanhe.

            Fiz o que mandava, a tartaruga abocanhou, e o machado desceu. Mas Dash não acertou porque a tartaruga, ao ver-lhe o braço, recolheu rapidamente a cabeça. Tentamos mais cinco ou seis vezes. O dia estava quente e pensei que devia ser por isso que estava suando, mas a verdade é que nunca me sentia à vontade com Hammett quando ele estava fazendo alguma coisa que não dava certo.

            Estiquei o pau, o animal não pegou e depois pegou e, enquanto isso, pus minha mão um pouco mais para baixo achando que podia segurá-lo melhor assim. A tartaruga soltou-o, e fez o movimento mais rápido que eu já vira, para atingir a minha mão. Recuei num pulo, e a ripa arranhou a minha perna. Hammett largou o machado, tomou-me a vara e ordenou:

            - Vá se deitar.

            Respondi que não ia, e ele retrucou que eu tinha que ir para algum lugar para sair de seu caminho. Disse também que não faria aquilo, e que estava de mau humor porque não conseguia matar a tartaruga com o machado.

            - Vou dar uns tiros nela. Mas não é por isso que estou aborrecido. Há muito tempo que precisamos conversar, você e eu.

            - Fale agora.

            - Não, estou ocupado. Quero que saia do meu caminho.

            Pegou-me pelo braço, levou-me até os degraus da cozinha, obrigou-me a sentar e entrou em casa para apanhar o rifle. Quando voltou, pôs um pedaço de carne diante da cabeça da tartaruga e colocou-se atrás dela. Esperamos muito tempo. Finalmente a cabeça se mostrou para procurar a carne e a arma de Hammett disparou. O tiro foi uma beleza, apenas um pouquinho atrás dos olhos. Corria para lá quando a cabeça do animal teve um movimento convulsivo para a frente, e os pés se adiantaram, numa espécie de pulo desajeitado. Abaixei-me perto dela e Hammett avisou-me:

            - Não se aproxime muito. Não está morta.

            Apanhou então o machado e abateu-o com força sobre o pescoço do quelônio, cortando-lhe a cabeça, que ficou presa apenas pela pele.

            - É estranho – disse ele. – O tiro atravessou-lhe o cérebro, e no entanto, não a matou. Muito estranho.

            Agarrando a tartaruga pela cauda, subiu com ela o comprido lance da escada que levava à cozinha. Arranjamos algumas folhas de jornal e pusemos a tartaruga sobre o fogão a carvão que não usávamos muito, exceto quando era tempo de fazer lingüiça.

            - Agora vamos ter que aprender a cortá-la para fazer sopa. – observei.

            Dash concordou.

            - Certo. Mas é um trabalho demorado. Vamos esperar até amanhã.

            Helen estava de folga e tinha ido a New York, mas deixei um bilhete por debaixo da porta do quarto dela, avisando-a de que havia uma tartaruga deitada no fogão, mas que não se assustasse. Depois telefonei a minha tia Jenny em New Orleans para que me desse a deliciosa receita de sopa de tartaruga da minha infância e ela retrucou dizendo que eu me afastasse das tartarugas e voltasse aos bordados finos, como uma senhora que se preza.

            Na manhã seguinte, ao me levantar às seis para ajudar Fred a ordenhar as vacas, nem pensei na tartaruga, até que comecei a descer os degraus da escada da cozinha e vi o sangue. Porém, julgando que era o mesmo que tinha sido derramado na noite anterior, segui para os estábulos. Às oito horas, quando voltei, Helen perguntou o que queria para o café da manhã, acrescentando que fizera pão de milho, e que história era aquela de uma tartaruga em cima do fogão?

            Ia subindo para tomar um banho e respondi:

            - Exatamente o que disse. Tem uma tartaruga em cima do fogão, e desde criança você deve saber que há tartarugas que abocanham tudo.

            Passados alguns minutos ela subiu para me olhar fixamente na banheira.

            - Não há tartaruga nenhuma. Mas está tudo sujo de sangue.

            - Em cima do fogão a carvão – disse. – Desça e dê uma olhada.

            - Dei muitas olhadas. Não há tartaruga nenhuma em cima do fogão desta casa.

            - Vá acordar o Sr. Hammett – disse. – Imediatamente.

            - Não gostaria de ter que fazer isso – relutou. – Não gosto de acordar homens.

            Desci correndo até a cozinha, e depois voltei para cima a toda velocidade, entrei no quarto de Hammett e sacudi-o com força.

            - Levante-se já. A tartaruga desapareceu.

            Ele voltou-se para me olhar.

            - Você bebe demais de manhã.

            - A tartaruga desapareceu – repeti.

            Em poucos minutos ele estava na cozinha, olhando para o fogão. Disse para Helen:

            - Você limpou o chão?

            - Limpei – respondeu. – Estava uma sujeira danada. Olhe para os degraus.

            Dash examinou os degraus que iam para a adega e levavam ao gramado lá fora. Depois desceu lentamente, seguindo a trilha de gotas de sangue até o pomar. Perto, plantado muitos anos antes que comprasse a casa, havia um jardim entre pedras, mais de quarenta metros quadrados de árvores e plantas raras, que se elevavam numa subida íngreme, até a entrada da casa. Hammett dirigiu-se para lá, seguindo a trilha que circundava o pomar.

            - Uma vez, quando trabalhava para Pinkerton, achei uma roda gigante que tinha sido roubada de um parque de diversões ambulante – disse. – Depois perdi-a de novo, e até onde sei, nunca mais ninguém a encontrou.

            - Uma tartaruga não é uma roda gigante. Alguém a levou – repliquei.

            - Quem?

            - Não sei. Tem alguma teoria?

            - A tartaruga saiu sozinha.

            - Não gosto do que está dizendo. A noite passada estava morta. Completamente.

            - Olhe – disse ele.

            Apontava para o jardim de pedras. Salud e três filhotes de poodle estavam sentados sobre uma rocha grande, sem desviar os olhos de uma moita. Corremos para o jardim. Hammett mandou que os filhotes saíssem e separou os galhos da moita. A tartaruga, inclinada para um lado, no esforço para se movimentar, estava procurando sair dali, com a cabeça pendurada por um pedaço de pele do pescoço.

            - Meu Deus – dissemos juntos, e ficamos olhando as tentativas do animal durante o enorme espaço de tempo que levou para afastar-se alguns centímetros de nós. Então parou, e suas pernas traseiras enrijeceram. Salud, quieto até aquele momento, pulou imediatamente sobre ela, e dois filhotes, latindo, o imitaram. Salud lambeu o sangue da cabeça, e a tartaruga mexeu a patas dianteiras. Agarrei Salud pela coleira e joguei-o contra uma pedra com demasiada força.

            - A tartaruga não pode mordê-lo mais. Está morta – disse Hammett.

            - Como sabe? perguntei.

            Ele segurou o animal pela cauda.

            - Que vai fazer?

            - Levá-la de volta à cozinha.

            - Não. Vamos levá-la para o lago. Merece viver.

            - Morreu. Está morta desde ontem.

            - Não. Ou talvez estivesse morta e agora não está mais.

            - A ressurreição? Para uma ex-católica, você é uma mulher muito estranha – disse ele, afastando-se.

            Estava atrás dele quando entrou na cozinha e jogou a tartaruga na mesa de mármore. Ouvi a exclamação de Helen:

            - Deus do céu! Que o bom Senhor nos ajude a todos!

            Hammett apanhou uma das facas de carne. Movia os lábios, como se recapitulasse o que tinha lido. Separou a carne da perna, da carapaça, cortando habilmente em torno das juntas. Quando a faca penetrou, a outra perna mexeu-se.

            Helen saiu da cozinha e eu disse:

            - Você sabe muito bem que ajudo a cortar os animais e não gosto da conversa de pessoas que dizem que matar é horrível, mas que estão prontas a comer o que é abatido e morto para elas. Mas isso é diferente. É outra coisa. Não devíamos tocá-la. Conquistou o direito à vida.

            Ele largou a faca.

            - Muito bem. Como você quiser.

            Fomos para a sala e ele pegou num livro. Após uma hora, perguntei:

            - Então como se pode definir a vida?

            - Lilly, estou muito velho para essa filosofia.

            À tarde, telefonei para a Sociedade Zoológica de New York, para a qual contribuía. Custei muito a conseguir que transferissem a ligação para alguém que entendesse de tartarugas. Quando terminei minha explicação, a voz jovem disse:

            - Sim, a Chelydra Serpentina. Um adversário feroz. Onde a conheceu?

            - Onde a conheci?

            - Encontrou.

            - Em um coquetel para homens de letras, à margem de um lago.

            Ele tossiu.

            - Em terra ou na água? É especialmente feroz quando está em terra. Morde tão rapidamente que muitas vezes não se pode acompanhar o movimento com o olhar. Seus membros são muito fortes, e uma projeção estreita de cada lado os liga à carapaça...

            - Sim – disse. – O senhor está lendo o mesmo livro que eu. O que quero saber é como conseguiu descer uma escada e subir a rampa de um jardim, com a cabeça pendurada por um pedaço de pele.

            - Uma dessas tartarugas de tamanho médio pesa entre oito e doze quilos, mas já foram encontradas várias com o dobro do peso. Os ovos são muito interessantes, de casca resistente, e se assemelham a bolas de pingue-pongue...

            - Por favor, diga-me o que pensa da, da, da vida dela.

            Após uma pausa, ele disse:

            - Não compreendo.

            - Está, ou estava viva, quando a achamos no jardim? Está viva agora?

            - Não sei onde quer chegar – respondeu.

            - Estou lhe perguntando sobre a vida. O que é vida?

            - Suponho que seja o que existe antes da morte. Por favor, ponha o coração dela numa pequena quantidade de água com sal, e tenha a bondade de nos escrever dizendo por quanto tempo o coração bateu. Temos registros de dez horas.

            - Então não está morta.

            Houve mais uma pausa.

            - Não no sentido comum.

            - E qual é o sentido comum?

Alguém falou, no barulho que fazia fundo à nossa conversa, e ouvi-o cochichar. Depois disse:

            - Esse tipo de tartaruga representa uma forma muito primitiva, talvez a forma mais primitiva de vida.

            - Está viva ou morta? – insisti. - É tudo o que quero saber, por favor.

            Houve mais sussurros.

            - A senhora pediu uma opinião científica, não tenho qualificações para lhe dar uma opinião teológica. Obrigada por telefonar.

            (Dez ou doze anos depois, ao fim de um jantar, uma mulher imensa atravessou a sala e veio sentar-se perto de mim. Disse-me que estava empenhada em escrever um livro sobre Madame de Staël, e quando acabe de emitir os sons que reservo para coisas que não entendo, ela prosseguiu:

            - Meu irmão era zoólogo. Uma vez a senhora telefonou para ele a respeito de um certo tipo  de tartaruga.

            Pedi-lhe que o cumprimentasse e lhe apresentasse as minhas desculpas, e ele disse:

            - Oh, isso não é necessário. Está trabalhando em Calcutá).

            Mas no dia do telefonema fui contar minha conversa a Hammett. Ele ouviu, sorriu quando cheguei à parte teológica, e voltou à leitura do velho livro, chamado The Animal Kingdom. Minhas anotações na primeira página desse livro, que peguei novamente numa tarde de julho de 1972, trouxeram-me a lembrança da tartaruga.

            Quase na hora do jantar, Helen veio à sala e disse:

            - Aquela tartaruga. Não posso cozinhar com ela parada perto de mim.

            - Que vamos fazer? perguntei a Hammett.

            - Sopa.

            - Na próxima vez. Na próxima tartaruga. Vamos enterrar essa.

            - Você que a enterre.

            - Está zangado comigo. Por quê?

            - Estou tentando entender você.

            - É que ela conseguiu chegar tão longe. E eu nunca tinha pensando sobre a vida, se é que sabe o que quero dizer.

            - Não, não sei – disse ele.

            - Sobre o que é a vida e coisas assim.

            - Coisas assim. Na sua idade.

            - Você é muito mais velho do que eu – retorqui.

            - Isso ainda lhe dá trinta e quatro anos, e continua velha demais para essas coisas.

            - Está zombando de mim.

            - Pare com isso, Lilly. Conheço todos os sintomas.

            - Sintomas de quê?

            Ele levantou-se e saiu da sala. Uma hora depois levei-lhe um martini e disse:

            - Só essa tartaruga. Na próxima estarei em forma.

            - Para mim, tudo bem - disse ele – de um jeito ou de outro.

            - Não, não está bem para você. Está querendo me dizer outra coisa.

            - Estou dizendo que pare com isso.

            - E eu estou dizendo...

            - Não quero jantar – disse Hammett.

            Saí do quarto batendo a porta. Na hora do jantar mandei-lhe um recado para que descesse imediatamente, e Helen voltou, dizendo que respondera que não estava com fome ainda.

            Durante o jantar, Helen avisou que não queria a tartaruga na cozinha quando descesse para fazer o café pela manhã.

            Por volta das dez horas, quando Helen já se deitara, fui ao andar de cima e atirei um livro contra a porta de Hammett.

            - Sim? disse ele.

            - Por favor, venha me ajudar a enterrar a tartaruga.

            - Não enterro tartarugas.

            - E me enterrará?

            - Quando chegar a sua hora, farei o possível – respondeu.

            - Abra a porta.

            - Não. Peça a Fred Herrmann para ajudá-la a enterrar a tartaruga. E peça a Helen que lhe empreste o livro de orações.

            Mas quando acabei de beber o terceiro copo, era muito tarde para acordar Fred. Fui olhar a tartaruga e vi que o sangue estava pingando no chão. Havia muitos anos que tinha um certo medo de Helen, e ainda o teria nos anos por vir. E assim, cerca de meia-noite amarrei uma corda na cauda da tartaruga, apanhei a lanterna, arrastei-a escada abaixo até a garagem e amarrei-a ao pára-choque do carro. Depois voltei e me pus embaixo da janela de Hammett:

            - Venha e ajudar – gritei. – Sou fraca e não posso cavar um buraco tão grande.

            Depois de eu repetir a mesma coisa muitas vezes, ele respondeu:

            - Gostaria de ajudar, mas estou dormindo.

            Passei a hora seguinte cavando um buraco na ribanceira acima do lago e quando cobri a tartaruga o uísque tinha acabado e eu estava tonta e enjoada. Espetei uma vara na sepultura e fui para a casa, mas devo ter adormecido na metade do caminho, porque acordei ao raiar do dia sob uma chuva pesada e com as rodas do carro sobre um toco de árvore. Fui para casa e para a cama e nem Hammett, e nem eu, falamos na tartaruga por uns quatro ou cinco dias. Isso não foi por acaso, mas porque não nos falamos nem uma palavra durante três dias, fazendo as refeições em horas diferentes.

            Então ele voltou de uma caminhada num fim de tarde e disse:

            - Peguei duas tartarugas. O que quer fazer com elas?

            - Matá-las. Fazer sopa.

            - Tem certeza?

            - Tudo é difícil na primeira vez. Você sabe disso.

            - Não sabia até que conheci você – disse ele.

            - Fiquei com as costas doendo de cavar aquela sepultura, e estou resfriada, mas tinha que enterrar aquela tartaruga, e não quero mais falar nisso.

            - Você não fez um serviço muito bom. Algum animal esteve na sepultura e comeu a tartaruga, mas mesmo assim Deus vai abençoá-la. Juntei os ossos, coloquei-os na cova outra vez, e pintei uma lápide por você.

            Durante todos os anos em que vivemos naquele lugar, podia-se ver perto do lago uma placa caprichosamente pintada: “Aqui jaz minha primeira tartaruga. Senhorita Religiosa L. H.”.

            Talvez hoje ainda esteja lá.


[Encontro Novembro 2008 coordenação: Denise]