quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Sobre o fim!

Memória
(Para Elaine Sallas)

Te arrancar do meu passado não foi fácil
Me sobe um amargo, um gosto da tua voz
Em transe

Você fazendo piruetas com os pés
Avançando as madrugadas sem sono
Sob totens, sob ladeiras,
Sobre a mesa dos bares que varavam nossas conversar e risadas
A fio

Eu não esqueço a sombra do seu chapéu
No meu espelho
Eu não esqueço o cheiro do seu perfume
A quilômetros antes de a maçaneta da porta
Girar

Eu não esqueço, no folhetim
Os quatro cavalheiros sem armas com o corpo aberto
Nus na praia
Nos barcos da solidão
As pernas cruzadas, o cinza pelo solo
O clarão na sua fala: uma flecha.

Eu não consigo me ver sem ter você
E por isso eu apaguei tudo
Fora de mim
Por isso eu dei um fim no álbum das emoções
Porque há fragmentos que eu não poderia
Ter rasgado uma só parte.

Fiquei com o fundo do caderno
O espasmo
Dilacerei a sua foto inteira
E silenciei

Porque há coisas que eu não consigo guardar nem rever
Porque eu poderia me acender
E do fogo
Eu não consigo fugir.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Texto para ser partilhado...

A Galinha Degolada

Horácio Quiroga



O dia inteiro sentados num banco do pátio, ficavam os quatro filhos idiotas do matrimônio Mazzini-Ferraz. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos vazios e se voltavam com a boca aberta. O pátio era de chão batido, fechado a oeste por um muro de ladrilhos. O banco ficava paralelo a ele, a uma distância de cinco metros, e ali os filhos se mantinham imóveis, com os olhos fixos nos ladrilhos. O sol desaparecia detrás do muro e, ao declinar, os idiotas faziam festa. A princípio, a luz alucinante chamava sua atenção e, pouco a pouco, seus olhos se animavam: riam finalmente estrepitosos, congestionados pela mesma hilaridade ansiosa, contemplando o sol com uma espécie de alegria bestial..

Outras vezes, alienados no banco, zumbabam horas inteiras, imitando o bonde elétrico. Os ruídos violentos sacudiam desta forma sua inércia e então corriam, mordendo a própria língua e bramando, ao redor do pátio. Contudo, quase sempre estavam apagados, imersos na profunda letargia do idiotismo, e passavam todo o dia sentados em seu banco, com as pernas suspensas e quietas, empapando a calça de uma saliva grossa.

O mais velho tinha doze anos e o menor, oito. Em todo seu aspecto sujo e miserável, notava-se a falta absoluta de um mínimo cuidado maternal..

Esses quatro idiotas, no entanto, tinham sido um dia o encanto de seus pais. Com três meses de casados, Manzzini e Berta orientaram seu estreito amor de marido e mulher, mulher e marido, para um futuro muito mais vital: um filho. Que maior felicidade para dois apaixonados que essa honrosa consagração de seu carinho, libertado já do vil egoísmo de um mútuo amor sem fim nenhum e o que é pior para o amor mesmo, sem esperanças possíveis de renovação?

Assim estavam Mazzini Berta, e quando o filho nasceu, aos catorze meses de casamento, acreditaram cumprida sua felicidade. A criança cresceu bela e radiante, até um ano e meio. Porém, no vigésimo mês, sacudiram-na uma noite convulsões terríveis, e na manhã seguinte não conhecia mais seus pais. O médico examinou-o com essa atenção profissional de quem está visivelmente buscando o mal nas enfermidades dos pais.

Depois de alguns dias, os membros paralisados recuperaram o movimento; porém a inteligência, a alma, até o instinto se haviam ido tudo: tinha ficado profundamente idiota, babão, pendente, morto para sempre sobre os joelhos da sua mãe.

— Filho, meu filho querido!— soluçava esta, sobre aquela espantosa ruína de seu primogênito.

O pai, desolado, acompanhou-a ao médico.

— A você se pode dizê-lo. Creio que é um caso perdido. Poderá melhorar, educá-lo com todas as limitações de seu idiotismo, porém não mais longe.

— Sim…! Sim — assentia Mazzini. — Porém, diga-me: você acredita que é hereditário, que...?

— Quanto à hereditariedade paterna, já lhe disse o que acreditava quando vi seu filho. Respeito sua mãe, mas há ali um pulmão que não sopra bem. Não vejo nada mais, porém há um sopro um pouco áspero. Faça com que ela o examine bem.

Com a alma destroçada pela aflição, Mazzini redobrou o amor a seu filho, o pequeno idiota que pagava pelos excessos do avô. Teve assim mesmo que consolar, prestar apoio sem trégua a Berta, ferida no mais profundo por aquele fracasso de sua jovem maternidade.

Como é natural, o casamento pôs todo seu amor na esperança de outro filho. Nasceu este, e sua saúde e seu riso límpido reacenderam o futuro entinto. Porém, aos dezoito meses as convulsões do primogênito se repetiram, e no dia seguinte amanheceu idiota.

Desta vez, os pais mergulharam em profundo desespero. Logo seu sangue, seu amor estavam malditos! Seu amor, sobretudo! Vinte e oito anos ele; vinte e dois, ela, e toda sua apaixonada ternura não conseguia criar um átomo de vida normal. Já não pediam mais beleza e inteligência como no primogênito; mas apenas um filho! Um filho, como todos!

Do novo desastre brotaram novas labaredas do dolorido amor, um louco desejo de redimir uma vez para sempre a santidade de sua ternura. Vieram gêmeos, e ponto por ponto, repetiu-se o processo dos dois mais velhos.

Mas, por cima de sua imensa amargura, ficava em Mazzini e Berta uma grande compaixão por seus quatro filhos. Teve que arrancar do limbo da mais funda animalidade, não já suas almas, senão o instinto mesmo abolido. Não sabiam deglutir, trocar de lugar, nem mesmo sentar-se. Aprenderam finalmente caminhar, porém se chocavam contra tudo, por não se dar conta dos obstáculos. Quando os banhavam, mugiam até injetar-se de sangue o rosto. Animavam-se somente ao comer, ou quando viam cores brilhantes ou quando ouviam trovões. Riam-se, então, jogando para fora a língua e rios de baba, radiantes de frenesi bestial. Tinham, em troca, certa faculdade imitativa; porém não se pode obter nada mais. Com os gêmeos parecia haver-se concluído a aterradora descendência. Contudo, transcorridos três anos, desejaram de novo ardentemente outro filho, confiando em que o longo tempo transcorrido houvesse serenado a fatalidade.

Não satisfaziam suas esperanças. E nesse ardente desejo que se exasperava, em razão de sua infrutuosidade, acidularam-se. Até esse momento, cada qual havia tomado sobre si a parte que lhe correspondia na miséria de seus filhos; porém a desesperança de redenção ante as quatro bestas que haviam nascido deles, jogaram fora essa imperiosa necessidade de culpar aos outros, que é patrimônio específico dos corações inferiores..

Iniciaram-se com a troca do pronome: teus filhos. E, além do insulto, havia a insídia, a atmosfera se carregava.

—Me parece — disse-lhe uma noite Mazzini, que acabava de entrar e lavava as mãos— que poderias deixar mais limpos os meninos.

Berta continuo lendo como si não o houvesse ouvido.

— É a primeira vez — refez-se a tempo— que te vejo inquietar-te pelo estado de teus filhos.

Mazzini voltou um pouco a cara para ela com um sorriso forçado:

— De nossos filhos, me parece?

— Bom; de nossos filho. Fica bem assim? —levantou ela os olhos.

Desta vez, Mazzini expressou-se claramente:

— Creio que não vais dizer que eu tenho a culpa, não?

—Ah, não! — sorriu Berta, muito pálida — porém eu tampouco, suponho...! Não faltava mais...! —murmurou

— O quê, não faltava mais?

— Que se alguém tem a culpa, não sou eu, entenda-o muito bem! Isso é o que queria te dizer.

Seu marido olhou-a por um momento, com um brutal desejo de insultá-la.

— Deixemos! — articulou, secando-se por fim as mãos.

— Como quiseres; porém se quiseres dizer….

— Berta!

— Como quiseres!

Este foi o primeiro choque, e lhes sucederam outros. Porém, nas inevitáveis reconciliações, suas almas uniam-se com duplo arrebatamento e loucura por outro filho.

Nasceu assim uma menina. Viveram dois anos com a angústia à flor da pele, esperando sempre outro desastre. Nada aconteceu, entretanto, e os pais puseram nela toda sua complacência, que a pequena levava ao mais extremos limites do mimo e da má criança.

Se assim nos último tempo Berta cuidava sempre de seus filhos, ao nascer Bertita, esqueceu-se quase de todo dos outros. Só sua recordação a horrorizava, como algo atroz que a houvessem obrigado a cometer. A Mazzini, bem que em menor grau, acontecia o mesmo.

Não por isso a paz havia chegado a suas almas. À menor indisposição de sua filha, corria para fora, com o terror de perdê-la, os rancores de sua descendência podre. Tinham acumulado ressentimento de sobra para que o vaso ficasse tenso, e ao menor contato o veneno o veneno se esvaziasse para fora. Desde o primeiro desgosto inoculado, haviam-se perdido o respeito; e se há algo que o homem se sente trasladado com cruel gozo é quando já se começou a humilhar de todo a uma pessoa. Antes se continham pela mútua falta de êxito; agora que este havia chegado, cada qual, atribuindo-o a si mesmo, sentia maior a infâmia das quatro aberrações que o outro lhe havia forçado a conceber.

Com estes sentimentos, não houve já para os quatro filhos maiores nenhum afeto possível. A empregada doméstica os vestia, dava-lhes de comer, deitava-os, com visível brutalidade. Quase nunca os banhava. Passavam quase todo o dia sentados de frente para o muro, abandonados de qualquer remota carícia.

Deste modo, Bertita cumpriu quatro anos, e nessa noite, por causa dos doces que era aos pais absolutamente negar-lhe, a menina teve calafrios e febre. O temor de vê-la morrer ou tornar-se idiota, tornou a reabrir a eterna ferida.

Fazia três horas que não se falavam e o motivo foi, como quase sempre, os fortes passos de Manzini.

— Meu Deus! Não podes caminhar mais devagar? Quantas vezes...?

— Bem, é que me esqueço. Acabou-se. Não o faço de propósito.

Ela sorriu com desdém:

— Não, não te acredito tanto!

— Nem eu, jamais, tinha acreditado tanto em ti....tisiquinha!

— Quê! Quê disseste...?

— Nada!

— Sim, ouvi algo de ti! Olha, não sei o que disseste; porém te juro que prefiro qualquer coisa a ter um pai como o que tens tido tu!

Manzini ficou pálido.

— Por fim! —murmurou com os dentes cerrados.— Por fim, víbora, hás dito o que querias!

— Sim, víbora, sim! Porém eu tive pais sadios! Ouves? Sadios! Meu pai não morreu de delírios!Eu havia de ter tido filhos como os de todo o mundo! Esses são filhos teus, os quatro, teus!

Mazzini explodiu por sua vez:

— Víbora tísica!Isso é o que lhe disse, o que quero te dizer! Pergunta-o ao médico, pergunta ao médico quem tem a maior culpa da meningite de teus filhos: meu pai ou teu pulmão doente, víbora!

Continuaram cada vez mais com maior violência, até que um gemido de Bertita selou instantaneamente suas bocas. À uma da manhã, a ligeira indigestão havia desaparecido, como acontece fatalmente com todos os casais jovens que têm se amado intensamente uma vez sequer, a reconciliação chegou, tanto mais efusiva quanto mais ofensivos foram os ultrajes.

Amanheceu um dia esplêndido, e enquanto Berta se levantava, cuspiu sangue. As más emoções e a má noite passada tinham, sem dúvida, grande culpa. Mazzini a reteve abraçada um longo tempo, e ela chorou desesperadamente, porém sem que nenhum se atrevesse a dizer uma palavra..

Às dez decidiram sair, depois de comer. Como mal tinham tempo, ordenaram à empregada
que matasse uma galinha.

O dia radiante havia arrebatado os idiotas de seu banco. De modo que enquanto a empregada degolava na cozinha a ave, dessangrando-a com parcimônia (Berta havia aprendido de sua mãe este bom modo de conservar a carne mais fresca), acreditou sentir algo como respiração atrás dela. Voltou-se, e viu aos quatro idiotas, com os ombros emparelhados um ao outro, olhando estupefatos a operação...Vermelho...Vermelho....

— Senhora, os meninos estão aqui na cozinha.

Berta chegou; não queria que jamais pisassem ali. E nem ainda nessas horas de pleno perdão e felicidade reconquistada, podia evitar-se essa horrível visão! Porque, naturalmente, quando mais intensos eram os êxtases de amor a seu marido e sua filha, mais irritado era seu humor com os monstros.

— Que saiam, Maria! Expulse-os! Expulse-os, lhe digo!

As quatro pobres bestas, sacudidas, brutalmente empurradas, foram para seu banco.

Depois de almoçar, saíram todos. A empregada foi a Buenos Aires, e o casal a passear pelas chácaras. Quando o sol baixou voltaram, porém, Berta quis saudar um momento suas vizinhas de frente. Sua filha escapou-se em seguida rumo a casa.

Entretanto os idiotas não se haviam movido todo o dia de seu banco. O sol já havia transposto o muro, começava a fundir-se, e eles continuavam contemplado os ladrilhos, mais inertes do que nunca.

De repente, algo se interpôs entre seu olhar e o muro. Sua irmã, cansada de cinco horas junto ao pai, queria observar por sua conta. Parada ao pé do muro, olhava pensativa o cume. Queria subir, isso não oferecia dúvida. Por fim decidiu-se por uma cadeira, sem fundos, porém faltava mais. Recorreu então a uma caixa de querosene e seu instinto topográfico fez-lhe colocar o móvel na vertical, com o qual triunfou.

Os quatro idiotas, com o olhar indiferente, viram como sua irmã lograva pacientemente dominar o equilíbrio, e como, na ponta dos pés, apoiava a garganta sobre o topo do morro, entre suas mãos delicadas. Viram-na olhar para todos os lados, e buscar apoio com o pé para elevar-se mais.

Porém o olhar dos idiotas havia se animado. Uma mesma luz insistente estava fixa em suas pupilas. Não afastavam os olhos de sua irmã, enquanto uma crescente sensação de gula bestial ia transtornando cada linha de seus rostos. Lentamente avançaram até o muro. A pequena, que tendo conseguido calçar um pé, ia já montar a cavalo no muro e a cair do outro lado, seguramente, mas sentiu-se segura pela perna. Debaixo dela, os oito olhos cravados nos seus lhe deram medo.

— Solta-me! Deixa-me! —gritou sacudindo a perna. Porém foi atraída.

— Mamãe! Ai, Mamãe! Mamãe, papai! — chorou imperiosamente. Tratou ainda de agarrar-se à borda, porém sentiu-se arrancada e caiu.

— Mamãe, aí! Ma... — Não conseguiu gritar mais. Um deles lhe apertou o pescoço e os outros arrastaram-na por uma só perna até a cozinha, onde essa manhã haviam dessangrado a galinha, bem submissa, arrancando-lhe a vida por segundos.

Mazzini, na casa em frente, acreditou ouvir a voz de sua filha.

— Me parece que te chama — disse-lhe Berta.

Prestaram atenção, inquietos, porém não ouviram mais nada. Contudo, um instante depois se separaram, e enquanto Berta ia deixar seu chapéu, Manzzini avançou no pátio:

—Bertita!

Ninguém respondeu.

— Bertita! —elevou mais a voz, já alterada.

E o silêncio foi tão fúnebre para seu coração sempre aterrorizado, que a coluna se lhe gelou de um horrível pressentimento

— Minha filha! — correu já desesperado até os fundos. Porém ao passar em frente da cozinha, viu no piso um mar de sangue. Empurrou violentamente a porta entreaberta, e lançou um grito de horror.

Berta, que já se havia lançado correndo por sua vez ao ouvir o aflito chamado do pai, ouviu o grito e respondeu com outro. Porém ao precipitar-se na cozinha, Manzini, muito lívido, interpôs-se, contendo-a.

— Não entres! Não entres!

Berta conseguiu ver o piso inundado de sangue. Só pôde jogar seus braços sobre a cabeça e abraçar-se ao marido com um áspero suspiro.




*Obra-prima do autor uruguaio, incluída na coletânea “Contos de Amor, Loucura e Morte”

domingo, 24 de julho de 2011

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Benção


[...]

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

eu por exemplo, a voz de flecha

cantora do mundo,

atriz de mim mesma

filha amada de todos os Orixás

Saravá

A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá!

A bênção, que eu vou partir

Eu vou ter que dizer adeus [...]

A benção Dona Denise Stucchi, mulher de fibra, mulher que ensina, mulher de amor

A benção Sr Fabiano, irmão mais lindo que Deus me deu

A benção Sr Leo, pelo coração puro e a alma nobre.

A benção Soraya pelos olhares de interrogação.

A benção Sr José Pedro, pela vitalidade de pedra.

A bençao Marcela, pelo som que sai da sua percussão.

A benção Cleide, pela força de suas pinceladas coloridas...

A benção Gui, pela doçura pisciana, pelo sorriso...

A benção Bix, pelo negrume dos olhos, pelas fotografias.

A benção Dan, por revelar o amor em grupo...

A benção Erika, pelas saudades e pela inteligência alegre...

A benção Sr Theo, pela generosidade, pela música, pelo tempero...

A benção Belchior, pela graça, pela companhia...

A benção Camila, pela sanidade, criatividade e luz...

A benção Dona Elaine, pela saudade, pelo pertencimento.

Saravá, saravá, saravá


sábado, 20 de novembro de 2010

Quatro cavaleiros do apocalipse

As bases não se perderam.

A Dama do Apocalipse

O Leão

A Voz

O Homem


o sonho constante que no próximo retorno de saturno, ou em qualquer fim do mundo, possamos juntos estar.

sábado, 26 de junho de 2010

2010


O clube de leitura se transmuta
nem sempre se lê, mas comungamos sempre...
celebramos o amor, a vida, as artes, o um e o outro.
pois foi pensado pra ser assim.
espaço - para ser preenchido.

saudades e vivas.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Ribeirão da Ilha


No dia azul de lua cheia de mar plácido de montanhas em névoa de comida farta de luzes amarelas de fantasmas pacíficos de roupas quentes de boas palavras de aquarelas renovadas de chão varrido de bebidas escuras de areia pouca de narizes gelados de anjos violinistas de madrugadas insensatas de velas sobre o piano de canecas com café de muita louça por lavar de fumaça tóxica de odor de alecrim de lágrimas almadas de jovens em suspensão de pássaros para cá e para lá de livros sobre mesa e sofás de banhos matinais de roupas nos varais de sonhos sem susto de ossos amolecidos por música de afeto entre pedras de anunciações inesperadas de malas abarrotadas de dúvidas concretas de fogo aéreo de saudades em sopro de silêncio compartilhado sem altos e baixos de alquimias homeopáticas de gordos abraços de muitos óculos de varanda esvaziada aconteceu mais um encontro deste a água e o vento.
[Denise, lembrando a reunião de 7 de junho, sob a batuta do Theo]

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Ao final de Maio

- Amanhã faço dez anos. Vou aproveitar bem este meu último dia de nove anos.
Pausa, tristeza:
- Mamãe, minha alma não tem dez anos.
- Quanto tem?
- Só uns 8.
- Não faz mal, é assim mesmo.
- Mas eu acho que se devia contar os anos pela alma. A gente dizia: aquele cara morreu com vinte anos de alma. E o cara tinha morrido mas era com setenta ano de corpo.
[Clarice Lispector, Aniversários, em 'Os melhores contos', Ed. Global, 1996]

quarta-feira, 6 de maio de 2009

seis de maio

IR-AO-FUNDO
a palavra que lemos.
Os anos, as palavras desde então.
Somos sempre os mesmos.

Sabes, o espaço é infinito,
sabes, não precisas voar,
sabes, o que se escreveu em teu olho
aprofunda-nos o fundo.

(Paul Celan, A rosa de ninguém, 1963)

[este é para celebrar o aniversário do nosso Leo]

sexta-feira, 1 de maio de 2009

primeiro de maio

Tudo passa - sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltamos nossos olhos para as estrelas. Por quê?
[Mikhail Bulgakov, The white guard]
(no dia do aniversário da peregrina Marcela)

sábado, 25 de abril de 2009

NO VALE

[desenho: Kafka]

Tinha vantagens em não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado.

[Adélia Prado, "Quero minha mãe", Ed. Record, 2005]


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Aviso aos navegantes.

Explicando:
As postagens sobre as mulheres, bem como todo o material de estímulo que foi postado antes da reunião, fará parte do novo arquivo Rainhas de Copas.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Hino a Marte

[pelo aniversário do Fabiano, no último domingo de março]

Ouçam-me
Protetores da humanidade,
Provedores da doce coragem da juventude.
Lancem seu brilho,
Sua luz suave
Sobre nossas vidas .
E seu poder marcial,
Para que eu possa dissipar
O medo
Da minha mente
E diminuir essa agitação enganosa
Do meu espírito, e dominar
Essa voz pungente do meu coração
Que me incita
A penetrar o tumulto arrepiante da batalha.
Tu, afortunado deus,
Dá-me coragem
Para permanecer nas leis seguras da paz
E assim escapar
De batalhas com inimigos
E da sina da morte violenta.
Tu, amada deusa,
Toma a minha alma
Gravando nela
A imagem da minha vida.


[Denise, de um anexo num livro de mitologia]

sábado, 28 de março de 2009

Resíduos IX

A última vez que recebi notícias suas meu caro amigo, foi num passar de noite para madrugada, reunidos estavamos eu e mais uns...  seu postal chegou a mim como um abraço daqueles longos e gentis de outrora.
de pronto lembrei-me da noite em que nos conhecemos, eu perdido num meio fio qualquer de Havana, frente a um qualquer prédio desbotado, eu ainda soluçava...
Seus passos firmes fizeram com que eu erguesse os olhos.  Você parou e ficou a observar, lembro bem, eram 06:51...  Não chores menino pois, "não dorme ninguém" pelo mundo. suspirei com a afirmação e ergui a cabeça, surpreso contemplei seu breve sorriso. Mal sabia o significado...
Nas noites sufocantes do calor cubano, aprendi com a fumaça das nossas 'tavernas'. Mesclando suas risadas ao tilintar do piano. E meus olhos tão juvenis jamais desgrudaram dos seus doces ensinamentos.  
E sua letra de emboscada, manchava o papel com a seguinte sentença, lembre-se dos cães, apenas eles cessarão as suas lágrimas. 
Saudades niño...
Saudades rubro García...


[Elaine ao amigo Lorca, após desaguar com o poema Cidade sem sonho ]

quarta-feira, 25 de março de 2009

Resíduos VIII Conversa com Lorca (e Fabiano)


Coloca-me,
como sinete sobre teu coração
como sinete em teu braço.
Pois o amor é forte, é como a morte
[i].

Durante o silêncio da escrita, deixa-se acompanhar
pelas vastidões de Mozart, pelas lentidões de Mahler.
(A música não deve morrer, vai perdurar além do fim do mundo!)
Depois de 7 anos, desliga o toca-discos e
abrem-se as comportas de um dique.
Uma linguagem alegórica, contundente,
investiga o enigma, o fundo do poço:
a mulher quer perfurar
o mistério divino que limita a escrita.
Não se transformam os temas,
expandem-se, entretanto,
por sua duração no tempo.
(Dentro do círculo/Faço-me extensa/
Procuro o centro/me distendendo
[ii].)
A plena comunhão erótica culmina
na imagem hierogâmica, de sacerdotisa
cumprindo ritual: a Mulher conta ao
Homem a verdade da experiência amorosa.
(Olhei-me a mim, como se tu me olhasses[iii].)
A mulher, durável refúgio, quer despertar
para o encontro, o movimento escorregadio do homem.
Permanência e fluidez = mulher—poeta.
Do Amor caminha para a Morte, e
anula falsas distâncias ao tocar
com ousada intimidade a poderosa figura,
participante indispensável da Vida.
(Te sei/ com a boca viva/ provei/
Em vida, morte, te sei/ Juntas. Tu e eu
[iv].)
Aproxima-se dela o tempo em que os frutos
do sagrado serão recolhidos: enquanto isso,
são as centelhas dessa luz encoberta
na poesia, nas palavras.
Não interrompe a procura, até que se diluam
as fronteiras enganosas entre o erótico e o místico.
O Desejado é o verdadeiro Deus,
a quem anseia se entregar,
como um dia se entregou ao chamamento do amado.
(Porque vives de mim, Sem Nome[v].)
No húmus do universo criado, toma coragem
e manifesta, patente ou latente,
sua verdade maior: [como fez o grego Kavafis]
rompe a ligação entre Deus e o homem
ao roubar a origem divina do ser humano.
(Como se eu mesma/ flutuasse cativa, ofélica, /
sobre Tua Grande Face
[vi].)
Pelo vazio cavado com essa ruptura, a mulher
entrega-se a uma nova e insólita experiência:
Deus e homem descobertos como aspectos
da mesma coisa.
O Novo Sagrado — poderoso, temido,
desejado, atraente como
um abismo, porém
colocado sob seu olhar, entre suas mãos.
(vives em mim, Sem Nome / Porque sei de ti
a tua forma/ tua noite de ferrugem
[vii].)


[i] Cântico dos Cânticos, 8, 6.
[ii] Hilda Hilst, Júbilo, memória, noviciado da paixão, 1974.
[iii] Idem, Do amor, 1999.
[iv] Idem, Poemas XXIX, XXX, 1980.
[v] Idem, Sobre tua grande face, 1986.
[vi] Idem.
[vii] Hilda Hilst, Sobre tua grande face, 1986.

[Denise, extraído do seu "Escrito com o Livro de Jó", 2007, III - VI]

Resíduos VII Federico e eu

Não posso me dar ao desbunde (para usar um termo "fabianístico") de citar quaisquer trechos do poeta viajão. A leitura parece promover mais viagens do que as próprias feitas pelo autor. Em mim, provocou o inconsciente, que se manifestou em sonho e fome: sempre, ao recorrer ao Poeta en Nueva York, (que só li na lingua "madre"), corria à cozinha e me empanturrava, vorazmente. Certamente, se estivesse de corpo presente na reunião da casa do Theo, que cozinha muito bem obrigado!, teria causado certo prejuízo, como de costume.
Como disse essa semana o nosso gentil e pensante ministro da cultura, Juca Ferreira, "a arte alimenta o espírito". O estômago ficou aliado ao espírito e pediu alimento da maneira que lhe cabe (e na proporção também) para viajar com Federico, o marido de Dalí. A escrita desse homem triste e viajado deixou-me inicialmente "boiando" entre palavras e combinações bem-feitas de versos naquele lindo idioma. Mais do que o que ele estava relatando, ou divagando em sua poesia, ó poeta, dirijo-me diretamente a outras possibilidades suas de escrita. Qual era a cor do seu papel? A sua caneta (ou pena!!!) foi produzida em Cuba? O estômago desse homem hispânico estava cheio ao passear a ponta da caneta (ou pena!!!) pelo papel? Vejo um papel roxo claro, uma caneta minuciosamente polida (sim, barroco!) e uma marca qualquer escrita em... español!! Por supuesto, no?
Ao ler os primeiros poemas de Federico, dormi, após comer. Sonhei com uma aula de estágio que fiz na 3ª ou 4ª fase de cênicas, na UDESC. Nela, estavam todos os meus amigos e colegas que passaram pelo curso, deixando-o cedo ou tarde. Aquela aula, que meu sonho proporcionou reviver, reunia todos aqueles que um dia passaram pela mínima experiência de cursar teatro na faculdade. Federico também passou pela experiência de escrever em español em terras americanas do norte. Possivelmente, com uma caneta barroca em papel roxo. O sonho me acalentou e demorou alguns dias pra eu concluir, ou esboçar: foi porque eu li Federico.
Corri ao guarda-roupa, onde guardo roupas e uma obra do sugestionável Federico chamada "Assim que se passarem 5 anos", texto teatral que ele intitula ser "um devaneio sobre como vejo o tempo passar e a natureza se transformar". Como aquelas palavras se parecem com os poemas do Central Park! Li novamente toda a peça. Divaguei possibilidades de encenação - como não fazer isso?! - comi e voltei à Nueva York com Federico. E aí... vi tanto Tadeusz Kantor, que também dança sua(s) morte(s), bem como vi todas as suas mulheres sofridas e derrotadas pela terra e pelo acontecimentos de uma espanha forte, masculina(o), pontiaguda, em meio à guerra e ao cuidado com o futuro. Mas tudo que não consigo ver é o futuro em quaisquer versos de Federico. Sabe-se de agora e de antes. Até mesmo do já! Depois, futuro, lá na frente... nada disso me aparece nele. Espera-se a morte para o próximo verso e ela não vem. Espera-se um filho para pobre Yerma do deserto e ele não vem. Segura-se o filho da pobre mãe de sangue e ele se vai pelo corte da navalha dos Félix. E Alba trancafia seu luto por sete anos sem abrir portas e janelas. A trilogia espanhola da dor é a coletânea do suspense poético americano de Federico. O que Dalí acharia desse surrealismo literário?
Não li nada relacionado ao momento da escrita de Federico. A obra me caiu deliciosa por sí. Eu, que sou um amante dos "making off" e das trajetórias artísticas fiz essa opção. Foi como quando li "Escrita com o livro de Jó", tese da dona Denise. O apêndice onde ela relata seu percurso de escrita apareceu-me como um pedido do orientador e não parte da obra, pois a obra já diz (e como diz!) e contempla toda possibilidade imaginativa do "como", "onde", "por que", etc... Fiquei receoso de encontrar em algum momento informações sobre a cor do papel e da caneta.
[em mensagem do Fabiano, lá de Campinas]

Resíduos VI 1a epistola aos interditos - alvejaram Lorca

.
Quiero llorar porque me da la gana
como lloran los niños del último banco,
porque yo no soy un hombre, ni un poeta, ni una hoja,
pero sí un pulso herido que sonda las cosas del otro lado.
Federico García Lorca

cariño,

sinto o gosto de cada um dos estilhaços
marcarem de púrpura meu rosto.
o impacto é súbito e os cortes simultâneos,
mas sinto o gosto de cada centelha sua
neste milésimo que agora conto e canto.

estou no campo e as cercas nos fazem rebanho.
eu não fui julgado,
os fuzis não me são estranhos,
respiro uma estrela na lapela.

estou em frente à imagem sua,
forjada do calor dos fornos e terra cinza,
enquanto se sustenta na ameaça de disparo,
embebida em carne nua,
a marreta trêmula que o golpe avista.

o impacto da marreta me enrubesce a face
e não é beijo o que sinto.
falta-me corpo, já não existo,
a lei dos campos dilacerou a imagem.

ps.: hoy recibí en el mar una carta de amigos.

(oberdan piantino - carta escrita após leitura de "poema doble del lago edem", de Federico García Lorca, durante encontro sobre o livro "poeta en nueva york", na reunião de março de 2009. também, carta-dedobramento publicada em os escritores invisíveis. imagem de Lorca, "san sebastián", 1927).

terça-feira, 24 de março de 2009

Federico García Lorca



Federico García Lorca nasceu em 5 de junho de 1898, no povoado andaluz de Fuente Vaqueros, Granada. Seu pai, Federico García Rodrigues, tinha plantações de fumo e beterraba, e sua mãe, Vicenta Lorca Romero, foi professora da escola local. Aos 11 anos, Lorca mudou-se com sua família para a cidade de Granada, mas voltaria sempre ao campo, para passar os verões, onde escreveu boa parte de sua obra.
Lorca pensou o mundo de uma forma única, e traduziu estes pensamentos em música, literatura, teatro, desenho e pintura.
Morreu aos 38 anos fuzilado pelos soldados de Franco durante a Guerra Civil Espanhola, na madrugada de 19 de agosto de 1936, em um local bem próximo de Fuente Vaqueros.
(http://www.garcia-lorca.org/)


O poema Grito Hacia Roma faz parte do livro Poeta em Nueva York, publicado pela primeira vez em 1940 no México e nos Estados Unidos. O livro foi escrito entre os anos de 1929 e 1930 quando Federico viveu na cidade de Nova Iorque, como estudante de inglês na Universidade de Columbia.


GRITO HACIA ROMA
A mi editor Armando Guibert.

(DESDE LA TORRE DEL CRYSLER BUILDING)

Manzanas levemente heridas
por finos espadines de plata,
nubes rasgadas por una mano de coral
que lleva en el dorso una almendra de fuego,
peces de arsénico como tiburones,
tiburones como gotas de llanto para cegar una multitud,
rosas que hieren
y agujas instaladas en los caños de la sangre,
mundos enemigos y amores cubiertos de gusanos
caerán sobre ti. Caerán sobre la gran cúpula
que untan de aceite las lenguas militares
donde un hombre se orina en una deslumbrante paloma
y escupa carbón machacado
rodeado de miles de campanillas.
[Encontro Março 2009 coordenação: Theo]
Porque ya no hay quien reparta el pan ni el vino
ni quien cultive hierbas en la boca del muerto,
ni quien abra los linos del reposo,
ni quien llore por las heridas de los elefantes.
No hay más que un millón de herreros
forjando cadenas para los niños que han de venir.
No hay más que un millón de carpinteros
que hacen ataúdes sin cruz.
No hay más que un gentío de lamentos
que se abren las ropas en espera de la bala.
El hombre que desprecia la paloma debía hablar,
debía gritar desnudo entre las columnas,
y ponerse una inyección para adquirir la lepra
y llorar un llanto tan terrible
que disolviera sus anillos y sus teléfonos de diamante.
Pero el hombre vestido de blanco
ignora el misterio de la espiga,
ignora el gemido de la parturienta,
ignora que Cristo puede dar agua todavía,
ignora que la moneda quema el beso de prodigio
y da la sangre del cordero al pico idiota del faisán.

Los maestros enseñan a los niños
una luz maravillosa que viene del monte;
pero lo que llega es una reunión de cloacas
donde gritan las oscuras ninfas del cólera.
Los maestros señalan con devoción las enormes cúpulas sahumadas;
pero debajo de las estatuas no hay amor,
no hay amor bajo los ojos de cristal definitivo.
El amor está en las carnes desgarradas por la sed,
en la choza diminuta que lucha con la inundación;
el amor está en los fosos donde luchan las sierpes del hambre,
en el triste mar que mece los cadáveres de las gaviotas
y en el oscurísimo beso punzante debajo de las almohadas.
Pero a viejo de las manos traslúcidas
dirá: Amor, amor, amor,
aclamado por millones de moribundos;
dirá: amor, amor, amor,
entre el tisú estremecido de ternura;
dirá: paz, paz, paz,
entre el tirite de cuchillos y melones de dinamita;
dirá: amor, amor, amor,
hasta que se le pongan de plata los labios.

Mientras tanto, mientras tanto ¡ay! mientras tanto,
los negros que sacan las escupideras,
los muchachos que tiemblan balo el terror pálido de los directores,
las mujeres ahogadas en aceites minerales,
la muchedumbre de martillo, de violín o de nube,
ha de gritar aunque le estrellen los sesos en el muro,
ha de gritar frente a las cúpulas,
ha de gritar loca de fuego,
ha de gritar loca de nieve,
ha de gritar con la cabeza llena de excremento,
ha de gritar como todas las noches juntas,
ha de gritar con voz tan desgarrada
hasta que las ciudades tiemblen como niñas
y rompan las prisiones del aceite y la música,
porque queremos el pan nuestro de cada día,
flor de aliso y perenne ternura desgranada,
porque queremos que se cumpla la voluntad de la Tierra
que da sus frutos para todos.
[Encontro Março 2009 coordenação: Theo]

domingo, 22 de março de 2009